O ensino de história nas escolas brasileiras vai ganhar um colorido mais africano. Em sua segunda fase, A Cor da Cultura passa a funcionar como política pública, ao dar condições para que as redes educacionais utilizem, de forma autônoma, o material desenvolvido pelo projeto.
O objetivo é dar maior efetividade à lei 10.639/03, que tornou obrigatória a inclusão da história e da cultura afro-brasileiras no currículo escolar. O projeto é uma parceria entre a Petrobras, o Ministério da Educação, a Secretaria Especial de Promoção de Políticas para Igualdade Racial (SEPPIR), o Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (CIDAN) e a Fundação Roberto Marinho, por meio do Canal Futura. A iniciativa tem apoio da Fundação Palmares, TV Brasil e TV Globo.
No artigo abaixo, Márcio André dos Santos, mobilizador social do Canal, comenta uma experiência na capacitação de professores para a lei:
Por: Márcio André dos Santos*
Poucos duvidariam de que as identidades – étnicas, raciais, nacionais, religiosas, etc., são construções sociais que em muitos momentos fazem emergir sentimentos e reações profundas em todos nós. Seria exaustivo citar as tantas vezes em que fenômenos associados a defesa ou ataques a identidades específicas vieram à tona entre os séculos 20 e 21.
Em novembro de 2006, participei de um projeto denominado “A Cor da Cultura”, voltado a “capacitar” professores de ensino fundamental e médio de todo o país para a lei 10.639, de 2003, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira nas escolas. O projeto percorreu várias capitais e cidades brasileiras. Este relato é sobre minha experiência na cidade de Porto Alegre, pelas razões que exporei abaixo. Antes de relatar estrito senso o que ali me chamou a atenção, cabe expor brevemente qual a metodologia utilizada neste projeto.
O conceito
As relações raciais no Brasil se caracterizam ao longo da sinuosa história brasileira como um tema de ampla complexidade, exatamente por envolver estruturas do imaginário social, de valores de nacionalidade e pertencimento de grupo. Regra geral somos socializados sob a crença de que aqui, diferentemente de alhures, as relações entre os grupos raciais, mais especialmente brancos e negros, são de um outro tipo: mais leves, plásticas, harmônicas, sutis e raramente, ou jamais, violentas.
O racismo permanece como uma ideologia estranha à nossa formação social, um comportamento importado, seja dos Estados Unidos ou da África do Sul, ainda que centenas de pesquisas acadêmicas demonstrem sistematicamente o inverso disso e a imensa maioria das pessoas reconheça a existência de práticas racistas no dia-a-dia. Portanto, o projeto A Cor da Cultura estabeleceu como método de abordagem das relações raciais e dos conteúdos sobre a história dos africanos e dos negros no Brasil (sempre visto na relação com os brancos) tratar o tema de forma a mais lúdica e cuidadosa possível e sob o prisma pedagógico da interdisciplinaridade.
Durante as atividades de capacitação utilizávamos brincadeiras, estimulávamos os professores a relembrar canções da infância e uma série de estratégias que buscavam focar a questão, sem necessariamente nomeá-la diretamente. Aos poucos, durante três dias de trabalho junto aos educadores, o tema das relações raciais surgia sob nova roupagem, sem os sentimentos viscerais típicos do assunto. Mesmo que posto de forma indireta pelos coordenadores, a idéia de se trabalhar dessa maneira era para não afugentar e chocar os educadores brancos.
Perfil do Público
"Sou um cidadão afro-brasileiro e..."
Branco, eu?
Herança e Destino
* Márcio André dos Santos é mobilizador social do Futura, mestre em ciências sociais e doutorando em ciências políticas (marcdre27@gmail.com)