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26/01/10
Bastidores do tempo: MV Bill, Douglas Silva e Dudu Nobre no Tempos de Escola

MV Bill, quando pequeno, era o único da escola que gostava do mingau da merenda. Douglas Silva, no colégio, teimou para fazer aulas de teatro. Já Dudu Nobre, entre uma batucada e outra, tirava longos cochilos em sala de aula. Na gravação da nova temporada do Tempos de Escola, uma tarde para reviver os bons momentos.

09h15: MV Bill no avião

Rotina de artista é dureza. Manhã de sábado, o rapper MV Bill está no avião, em direção à São Paulo. Lá, nos estúdios de Serginho Groismann, ele grava sua participação na nova leva do programa. A equipe da série, no entanto, começa os trabalhos no dia anterior, com a montagem do novo cenário, com espaço mais amplo, sobreposição de paredes para dar mais volume e letras do alfabeto flutuantes, que brincam com o foco da câmera.

Visual mais moderno e maior descontração são os dois novos conceitos da temporada. Lecuk Ishida, diretor do programas, explica: “Buscamos fazer os depoimentos dos amigos e professores de forma mais estimulante, com mais humor”, comenta. “Para isso, usamos cenas cotidianas, para fazer com que agissem dentro de seus contextos. Entramos no universo deles, não eles no nosso. Como muitos não voltavam ali há mais de vinte anos, sentem a mesma emoção que a do convidado”.

11h40: Telas ligadas, câmeras a postos, gravando...

Duas horas depois do embarque, MV Bill chega aos estúdios. Alguns retoques de maquiagem e figurino e o cantor está pronto para abrir o baú. “Eu era fascinado por merendas. Gostava do mingau de chocolate que ninguém mais gostava”, começa a relembrar bem-humorado. Foi em uma escola pública da Cidade de Deus, bairro de classe média baixa do Rio de Janeiro e com maioria de estudantes negros, que o rapper, segundo suas próprias palavras, ‘aprendeu a ficar esperto’. “Lembro do meu primeiro dia no ginásio, quando comecei a conviver com o pessoal mais velho. Jogaram logo um pedaço de melancia dentro do meu mingau, pra mostrar que lá era outra escola”, conta.

Já no colégio, o futuro cantor passava a maior parte do tempo batucando, ou pensando em batidas. “Eu ouvia muita música americana, miami base, funk, soul. Em 88 descobri o rap e o hip hop. Essa era minha vida”, lembra. “Pouco se falava sobre política na escola, ou sobre tráfico. Ninguém sequer fumava baseado”. Entre as recordações tristes, Bill cita o constante rodízio de professores. “Tinha uma professora, a Denise, de quem eu gostava muito. Só depois entendi a necessidade dela de procurar empregos melhores”, conta.

Preocupação social, aliás, sempre foi um mote na vida do rapper, um dos fundadores da Central Única de Favelas, a CUFA, organização responsável por várias atividades sócio-educativas realizadas em várias favelas. Para o futuro, o cantor vislumbra mais trabalhos na área: “Quero tocar projetos de oficinas para jovens com atuação política”, conta. Ainda para este ano de 2010, Bill promete continuar os estudos, interrompidos antes da conclusão do segundo grau. E vislumbra um curso superior: “Penso em direito, ou em jornalismo”. Se depender da antiga professora de português, Dona Nair, escrever é um rumo possível. “Quando passava exercícios de redação, ela sempre dizia que eu tinha uma imaginação fértil”, comenta Bill. “Eu eu nem sabia o que significava fértil”.
 
12h20: Pausa para o almoço

Entre um convidado e outro, Serginho Groismann renova o figurino e dá suas impressões sobre o programa: “O que pra mim é sempre marcante é o fato de que, em geral, o sucesso profissional dos artistas é determinado pelo bom ambiente escolar que tiveram”, afirma. “Sempre tem uma professora de português, uma lembrança de leitura, ou uma aula de teatro que ficam marcados na vida destas pessoas. A escola é, sem dúvida, um espaço de referência”, diz.

Entre as suas próprias lembranças, Serginho cita o primeiro contato com a poesia: “Ouvir o poema´Tabacaria`, do Fernando Pessoa, me marcou para sempre”, comenta. “É claro que a família conta, mas é também papel da escola despertar a curiosidade das crianças para as artes em geral”, afirma.

13h20: Douglas Silva no estúdio (Veja aqui)

15h: Chove em São Paulo, Dudu Nobre preso no trânsito.

 Enquanto aguarda o último convidado, Serginho relembra seus próprios tempos de escola. “Fiz cursinho pré-vestibular no Colégio Equipe, em São Paulo. Este período me marcou muito”, conta. “Lá nós tínhamos aula de cinema, foto, artes plásticas. Nos anos 70, comecei a organizar um festival de música onde se apresentaram todos os artistas da época. Em plena década de repressão, podíamos cantar livremente”, diz.

Apesar dos bons tempos, Serginho ainda se recorda dos amigos torturados pelos anos de ditadura. “Os policiais iam sempre lá, levavam professores, torturavam os supostamente envolvidos com a subversão. Mas o festival conseguiu se manter vivo neste período e a escola formou os principais nomes das artes e intelectualidades do país”, orgulha-se.

15h40: As memórias do sambista encerram o dia (Veja aqui)

 

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